Crepúsculo


É hora do crepúsculo, aquele momento magnífico onde ocorre a troca das luzes. O véu que cobre o céu com um azul profundo começa a desbotar, perdendo sua cor lentamente. Diferentes tons de violeta se mesclam abrindo caminho para um céu escuro que avança com força. Em seguida, pequenas luzes surgem, são as delicadas estrelas do anoitecer.

Num túmulo sombrio, o cadáver de um homem é deixado para apodrecer. Três longas noites se passam. Por três vezes o sol anuncia o início de um novo dia. A luz do sol perde sua força novamente e se apaga com o frio de mais uma noite. Novamente chega o crepúsculo, aquele tempo entre as luzes, e o espírito do homem retorna ao seu corpo. A morte foge como um ser assustado.

De repente seus olhos tremulam e se abrem. O ar novamente invade seu corpo como uma enchente de fogo. Seus pulmões se enchem de um ar carregado com a doçura do crepúsculo, com o frescor do anoitecer e com a deliciosa fragrância das ervas do jardim. Como uma espada afiada, ele parte o laço da corda estranguladora da morte. Em poucos instantes todas as células do seu corpo estão novamente pulsando com nova vida. Um lindo sorriso molda seus lábios e uma satisfação profunda surge de suas entranhas, percorrendo seu corpo inteiro e escapando pelos seus lábios com um grito triunfante.

Ele se senta, ereto, retirando o linho manchado de sangue envolto em seu corpo. O poder da nova vida surge como uma fonte e direciona cada movimento dele. Seus pés descem de cima da pedra e tocam o chão. Ele está de pé, em pé, andando, saltando em direção à luz do crepúsculo.

Você conseguiu imaginar o poder do olhar desse homem quando seus olhos se abriram e expulsaram o ar pesado da morte? Sua visão rasgou a penumbra ao seu redor e atravessou a rocha fria e muda que o cercava. Ela partiu em direção ao azul e violeta do crepúsculo até alcançar o universo invisível e distante.

Ele viu triunfo. Ele viu os membros frios da morte chacoalharem como galhos esmurrados por uma tormenta. Ele viu a serpente fugindo. Ele viu a cabeça dela ser presa por um cajado e esmagada brutalmente pelo pisar de um calcanhar. Não é de se admirar que ele sorriu, e saltou, e dançou, e gritou, e louvou a Deus e foi ao encontro daqueles que ele amava...

Você não faria o mesmo?